Moça perdida em meu próprio tempo,
das tardes ensolaradas em repouso:
No piano, meu momento, minha palpitação;
no fascínio surpreendente de sua imagem,
o sonho de amor de Franz Liszt latente,
e os seios que vi tão reais e não toquei.
Naqueles fortes brilhos dos dias entardecidos,
meus olhos inseguros, meus únicos olhos,
meus desjeitos, minhas inexatidões pubescentes,
minha voz incerta, minha voz...
...
Ah, moça da roupa descuidada,
do calor das pernas verdadeiras que senti,
que fez meu sonho pulsar em rosto rubro,
na sala do passado que tinha sua música...
Ainda lhe ofereço minha memória, ainda,
mesmo que memória sem corpo e sem sangue,
com a intensidade dos olhos que me proibiram
ou que, talvez, muito me recusei a descobrir.
E, em meu silêncio indeciso na sala de sua música,
em minha triste alma que ficou desedificada,
o dia que não construí.
sábado, 11 de outubro de 2008
sábado, 4 de outubro de 2008
Nesta noite
Ah, o entendimento, a validade,
a estagnação dos horizontes intangíveis,
os segredos das imagens que se têm,
a suposição dos ângulos, a invisibilidade!
Em uma deformada obstinação,
uma voz configurada e uma exterioridade,
uma decidida adequação de formas,
a conveniência de uma luz recurvada.
Entre os ventos, os muitos ventos,
há os que sempre uivarão vazios,
sempre inalteráveis, enganados,
escuros e frios, em somas planetárias;
no silêncio dos passos irresolutos,
lágrimas secas e preces escusas,
as conclusões do sono elaborado,
as definitivas substâncias do ar:
nesta noite, nesta noite tão decidida,
há um tempo excluído, um silêncio conformado,
os desatinos dos ídolos, os métodos da inexistência,
são sólidos os continentes.
a estagnação dos horizontes intangíveis,
os segredos das imagens que se têm,
a suposição dos ângulos, a invisibilidade!
Em uma deformada obstinação,
uma voz configurada e uma exterioridade,
uma decidida adequação de formas,
a conveniência de uma luz recurvada.
Entre os ventos, os muitos ventos,
há os que sempre uivarão vazios,
sempre inalteráveis, enganados,
escuros e frios, em somas planetárias;
no silêncio dos passos irresolutos,
lágrimas secas e preces escusas,
as conclusões do sono elaborado,
as definitivas substâncias do ar:
nesta noite, nesta noite tão decidida,
há um tempo excluído, um silêncio conformado,
os desatinos dos ídolos, os métodos da inexistência,
são sólidos os continentes.
Hiatos
Tenho meus olhos cegos na avenida,
em sua ausência, nas distâncias do mundo...
Eu consulto estranhas estrelas, estranhas nebulosas.
Tenho meus olhos na chuva fria,
eu a detenho passiva em minha alma esquecida,
em meu tumulto, em um vento de noite vazia.
...
Eu tenho a velocidade esmagada,
uma imagem e um veículo sem formas,
eu invento seu corpo e meu sangue...
E ergo-me vivo e visionário,
Tenho os fragmentos de um chão,
Ergo-me coberto de espelhos e cristais.
...
Ergo-me substanciado em meu delírio,
na avenida, em sua grande ausência,
nos fragmentos de um corpo inexistente.
em sua ausência, nas distâncias do mundo...
Eu consulto estranhas estrelas, estranhas nebulosas.
Tenho meus olhos na chuva fria,
eu a detenho passiva em minha alma esquecida,
em meu tumulto, em um vento de noite vazia.
...
Eu tenho a velocidade esmagada,
uma imagem e um veículo sem formas,
eu invento seu corpo e meu sangue...
E ergo-me vivo e visionário,
Tenho os fragmentos de um chão,
Ergo-me coberto de espelhos e cristais.
...
Ergo-me substanciado em meu delírio,
na avenida, em sua grande ausência,
nos fragmentos de um corpo inexistente.
A criança
Qualquer cor, qualquer momento,
sempre a luz da cidade, ser e querer ser,
estar presente.
Não há um dia seguinte,
mas a vontade que trazemos,
o hoje que escondemos em nós,
talvez os passos que não daríamos,
qualquer rua, qualquer parede,
o chão em que colocamos os pés.
E o filho sempre será de humana divindade,
sempre se fará no riso dos desesperançados,
na voz dos desgraçados, dos insanos,
na sina dos desistentes e de nossos olhos,
nas angústias dos conformados,
na mão que não estendemos.
Ei, criança que está além de minha janela,
criança deixada dentro de um vestido lunar,
roupa de gente grande e suja de noites eternas:
vejo sua mãozinha saindo de dentro do tempo,
o beijo que lhe recusam, o silêncio do dia,
a lixeira do prédio e seu riso tão esperto!
Ei, criança mistura de mundo e fantasia,
eu a percebo, como a percebo:
você vem de grande luz imaginária!
sempre a luz da cidade, ser e querer ser,
estar presente.
Não há um dia seguinte,
mas a vontade que trazemos,
o hoje que escondemos em nós,
talvez os passos que não daríamos,
qualquer rua, qualquer parede,
o chão em que colocamos os pés.
E o filho sempre será de humana divindade,
sempre se fará no riso dos desesperançados,
na voz dos desgraçados, dos insanos,
na sina dos desistentes e de nossos olhos,
nas angústias dos conformados,
na mão que não estendemos.
Ei, criança que está além de minha janela,
criança deixada dentro de um vestido lunar,
roupa de gente grande e suja de noites eternas:
vejo sua mãozinha saindo de dentro do tempo,
o beijo que lhe recusam, o silêncio do dia,
a lixeira do prédio e seu riso tão esperto!
Ei, criança mistura de mundo e fantasia,
eu a percebo, como a percebo:
você vem de grande luz imaginária!
No quarto
A janela, o azul, o lado de fora...
Nuvens raleadas depois da janela,
as garças brancas que se escurecem!
E a cidade que não é minha,
o calor da cortina e três paredes lunares,
a porta da luz para o resto dos cômodos,
a espreguiçadeira gasta onde se repousa...
E o corredor é escuro, o firmamento,
a morada sem unicidade.
O retrato sob o abajur apagado.
No sentido da conformidade, a espera,
uma cama assentada no vazio;
nos olhos, a deformidade,
o mundo intervalado:
a mão desliza no corpo.
E as cores nunca se roubam,
os transeuntes articulados são invisíveis,
as roupas penduram-se em cabides,
os traços são elementos simetrizados,
os jardins de dentro são os jardins de fora,
as uniformidades de pedras cobertas por cimentos.
Nuvens raleadas depois da janela,
as garças brancas que se escurecem!
E a cidade que não é minha,
o calor da cortina e três paredes lunares,
a porta da luz para o resto dos cômodos,
a espreguiçadeira gasta onde se repousa...
E o corredor é escuro, o firmamento,
a morada sem unicidade.
O retrato sob o abajur apagado.
No sentido da conformidade, a espera,
uma cama assentada no vazio;
nos olhos, a deformidade,
o mundo intervalado:
a mão desliza no corpo.
E as cores nunca se roubam,
os transeuntes articulados são invisíveis,
as roupas penduram-se em cabides,
os traços são elementos simetrizados,
os jardins de dentro são os jardins de fora,
as uniformidades de pedras cobertas por cimentos.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Presença
Ah, fugir-nos-emos seguros, surpreendentes, livres!
Estaremos contidos em sólidas paredes, protegidos,
distantes um do outro, inteiramente abrigados.
O veículo já percorre as totalidades existentes,
ele rompe os sonhos, todos eles, e as almas:
estaremos inteiramente extremos, alheios.
Não deixemos que estas pessoas permaneçam,
estas pessoas sempre tão aparentes e esquivas,
pensemos em nossas impossíveis palavras.
E pensemos nas nossas impossíveis carícias,
na avidez que não teríamos, em nossa ausência,
nas controvérsias em que nos construiríamos.
Temos invisibilidade em nossas entranhas,
o silêncio é a medida de nossa intimidade.
Estaremos contidos em sólidas paredes, protegidos,
distantes um do outro, inteiramente abrigados.
O veículo já percorre as totalidades existentes,
ele rompe os sonhos, todos eles, e as almas:
estaremos inteiramente extremos, alheios.
Não deixemos que estas pessoas permaneçam,
estas pessoas sempre tão aparentes e esquivas,
pensemos em nossas impossíveis palavras.
E pensemos nas nossas impossíveis carícias,
na avidez que não teríamos, em nossa ausência,
nas controvérsias em que nos construiríamos.
Temos invisibilidade em nossas entranhas,
o silêncio é a medida de nossa intimidade.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
PAISAGEM
Veja a campina!...
Ela é imensa, imensa...
Alcança a montanha ao longe,
a montanha acinzentada...
a rígida cerca de arame farpado,
o rio imóvel que a atravessa
– a campina vazia sob o Sol.
o próprio céu é meu próprio rosto,
o resto de meu corpo, a montanha distante,
e não tenho substância, não tenho alma.
a rigidez que delimita as distâncias,
ainda que sua voz seja o vento,
meu som solitário, meu silêncio.
Ele é apenas um rio imóvel.
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