sábado, 4 de outubro de 2008
Nesta noite
a estagnação dos horizontes intangíveis,
os segredos das imagens que se têm,
a suposição dos ângulos, a invisibilidade!
Em uma deformada obstinação,
uma voz configurada e uma exterioridade,
uma decidida adequação de formas,
a conveniência de uma luz recurvada.
Entre os ventos, os muitos ventos,
há os que sempre uivarão vazios,
sempre inalteráveis, enganados,
escuros e frios, em somas planetárias;
no silêncio dos passos irresolutos,
lágrimas secas e preces escusas,
as conclusões do sono elaborado,
as definitivas substâncias do ar:
nesta noite, nesta noite tão decidida,
há um tempo excluído, um silêncio conformado,
os desatinos dos ídolos, os métodos da inexistência,
são sólidos os continentes.
Hiatos
em sua ausência, nas distâncias do mundo...
Eu consulto estranhas estrelas, estranhas nebulosas.
Tenho meus olhos na chuva fria,
eu a detenho passiva em minha alma esquecida,
em meu tumulto, em um vento de noite vazia.
...
Eu tenho a velocidade esmagada,
uma imagem e um veículo sem formas,
eu invento seu corpo e meu sangue...
E ergo-me vivo e visionário,
Tenho os fragmentos de um chão,
Ergo-me coberto de espelhos e cristais.
...
Ergo-me substanciado em meu delírio,
na avenida, em sua grande ausência,
nos fragmentos de um corpo inexistente.
A criança
sempre a luz da cidade, ser e querer ser,
estar presente.
Não há um dia seguinte,
mas a vontade que trazemos,
o hoje que escondemos em nós,
talvez os passos que não daríamos,
qualquer rua, qualquer parede,
o chão em que colocamos os pés.
E o filho sempre será de humana divindade,
sempre se fará no riso dos desesperançados,
na voz dos desgraçados, dos insanos,
na sina dos desistentes e de nossos olhos,
nas angústias dos conformados,
na mão que não estendemos.
Ei, criança que está além de minha janela,
criança deixada dentro de um vestido lunar,
roupa de gente grande e suja de noites eternas:
vejo sua mãozinha saindo de dentro do tempo,
o beijo que lhe recusam, o silêncio do dia,
a lixeira do prédio e seu riso tão esperto!
Ei, criança mistura de mundo e fantasia,
eu a percebo, como a percebo:
você vem de grande luz imaginária!
No quarto
Nuvens raleadas depois da janela,
as garças brancas que se escurecem!
E a cidade que não é minha,
o calor da cortina e três paredes lunares,
a porta da luz para o resto dos cômodos,
a espreguiçadeira gasta onde se repousa...
E o corredor é escuro, o firmamento,
a morada sem unicidade.
O retrato sob o abajur apagado.
No sentido da conformidade, a espera,
uma cama assentada no vazio;
nos olhos, a deformidade,
o mundo intervalado:
a mão desliza no corpo.
E as cores nunca se roubam,
os transeuntes articulados são invisíveis,
as roupas penduram-se em cabides,
os traços são elementos simetrizados,
os jardins de dentro são os jardins de fora,
as uniformidades de pedras cobertas por cimentos.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Presença
Estaremos contidos em sólidas paredes, protegidos,
distantes um do outro, inteiramente abrigados.
O veículo já percorre as totalidades existentes,
ele rompe os sonhos, todos eles, e as almas:
estaremos inteiramente extremos, alheios.
Não deixemos que estas pessoas permaneçam,
estas pessoas sempre tão aparentes e esquivas,
pensemos em nossas impossíveis palavras.
E pensemos nas nossas impossíveis carícias,
na avidez que não teríamos, em nossa ausência,
nas controvérsias em que nos construiríamos.
Temos invisibilidade em nossas entranhas,
o silêncio é a medida de nossa intimidade.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
PAISAGEM
Veja a campina!...
Ela é imensa, imensa...
Alcança a montanha ao longe,
a montanha acinzentada...
a rígida cerca de arame farpado,
o rio imóvel que a atravessa
– a campina vazia sob o Sol.
o próprio céu é meu próprio rosto,
o resto de meu corpo, a montanha distante,
e não tenho substância, não tenho alma.
a rigidez que delimita as distâncias,
ainda que sua voz seja o vento,
meu som solitário, meu silêncio.
Ele é apenas um rio imóvel.
sábado, 14 de junho de 2008
DESARTICULAÇÕES
Em meus ouvidos se injetavam palavras,
os uivos do tempo que construí e possuiu-me,
E meus olhos se invertiam fechados,
minha alma, uma silenciosa chama irresolvida.
o da umidade pegajosa sobre o corpo,
o do calor imóvel e da mudez das ruas
que imenso pássaro branco sobrevoava...
Ele me assustava, congelava-me a carne,
fazia-me o pressentir de um corpo imutável,
meu caminhar vazio na cidade sem esperança:
meus passos na noite das ruas,
na noite das casas dos homens adormecidos,
dos imensos prédios centrais abandonados,
dos veículos ausentes, das pedras desvividas.