Zuna, bicicletinha, zuna,
corra ladeira abaixo!...
Em meu rosto desenfreado,
os sentidos das desordens do ar,
dos desafios ao vento,
dos descaminhos do caos.
Lá embaixo, a rua estreita e a praça,
o colono da estátua e o cinema dos sonhos,
depois, a rua das mulheres vadias,
só mais adiante, o colégio dos frades.
Desça a ladeira, bicicletinha,
desça rápido, muito rápido!
Ao lado da ladeira, a flor que não beijarei
é minha lágrima-virtude.
quinta-feira, 26 de março de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
ENCONTRO
Talvez ouçamos muitas orações,
vozes e trombetas vibrantes
dos que aclamam as imagens.
Somos das terras dos vulcões,
terras extintas e necessárias,
de onde trazemos complexa bagagem,
o que nos resta caminhar.
Em nossa inconseqüência, vemo-nos sagrados,
apesar de nossas roupas tão vulgares,
das formas de Medusa que assumimos,
quando nos abraçamos, nos apertamos,
quando nos devoramos.
Queremo-nos em nossas palavras,
em nossos gemidos inúteis,
em nossas sórdidas invenções,
e em nossas oportunas mentiras...
A chuva cai muito lá fora, na noite.
Deixemos que os outros chorem.
E, depois, esqueçamo-nos em definitivo.
vozes e trombetas vibrantes
dos que aclamam as imagens.
Somos das terras dos vulcões,
terras extintas e necessárias,
de onde trazemos complexa bagagem,
o que nos resta caminhar.
Em nossa inconseqüência, vemo-nos sagrados,
apesar de nossas roupas tão vulgares,
das formas de Medusa que assumimos,
quando nos abraçamos, nos apertamos,
quando nos devoramos.
Queremo-nos em nossas palavras,
em nossos gemidos inúteis,
em nossas sórdidas invenções,
e em nossas oportunas mentiras...
A chuva cai muito lá fora, na noite.
Deixemos que os outros chorem.
E, depois, esqueçamo-nos em definitivo.
ASSIMETRIAS
Entrar por uma porta que é saída,
ter, no tato do vento, os espelhos dos olhos,
e alguém que sempre persiste dizendo:
“Pronto, aqui não estou!”
A luz é abismal, insondável,
é a omissão das sombras,
o mesmo que o escuro infinito,
uma consumação permitida.
Os passos, quando são firmes,
são sempre convulsivos
e há só uma direção,
um só caminho indicado...
Mas sempre há uma alma contrária.
ter, no tato do vento, os espelhos dos olhos,
e alguém que sempre persiste dizendo:
“Pronto, aqui não estou!”
A luz é abismal, insondável,
é a omissão das sombras,
o mesmo que o escuro infinito,
uma consumação permitida.
Os passos, quando são firmes,
são sempre convulsivos
e há só uma direção,
um só caminho indicado...
Mas sempre há uma alma contrária.
sexta-feira, 13 de março de 2009
O SÉQUITO
Eu vejo o desfile imenso:
as faces, os risos mortos,
os muitos olhos escuros,
as bocas deformadas,
os hálitos fétidos.
Eu vejo o grande desfile
seguindo o potentado,
a infinita procissão de sombras,
estendida nas penumbras dos dias.
Eu sinto, eu percebo, eu sei!
Vejo a consistência dos vultos,
os cálculos de seus passos frios,
o desfalecer, a rendição dos santos,
na inteira submissão dos reflexos.
Vejo as enormes filas vindas das distâncias,
as mulheres ocultas, travestidas no branco,
e as lamúrias dos homens não-revelados,
seus pés inúteis sangrados.
E você é como uma jarra com flores murchas,
negra de água apodrecida e lodo,
pois, com minhas mãos, lhe nego um abismo
e entrego-lhe imagens profundas sem véus.
Eu sempre venho, sempre me anuncio:
ainda lhe trago incenso, ouro e mirra
e trago-lhe, agora, uma cruz de acrílico,
tenho uma imensa avenida plástica.
as faces, os risos mortos,
os muitos olhos escuros,
as bocas deformadas,
os hálitos fétidos.
Eu vejo o grande desfile
seguindo o potentado,
a infinita procissão de sombras,
estendida nas penumbras dos dias.
Eu sinto, eu percebo, eu sei!
Vejo a consistência dos vultos,
os cálculos de seus passos frios,
o desfalecer, a rendição dos santos,
na inteira submissão dos reflexos.
Vejo as enormes filas vindas das distâncias,
as mulheres ocultas, travestidas no branco,
e as lamúrias dos homens não-revelados,
seus pés inúteis sangrados.
E você é como uma jarra com flores murchas,
negra de água apodrecida e lodo,
pois, com minhas mãos, lhe nego um abismo
e entrego-lhe imagens profundas sem véus.
Eu sempre venho, sempre me anuncio:
ainda lhe trago incenso, ouro e mirra
e trago-lhe, agora, uma cruz de acrílico,
tenho uma imensa avenida plástica.
PERMANÊNCIA
Ah, ainda tenho minhas pedras, muitas pedras!...
E trago, agora, vidros e resinas abundantes,
também meus engenhos híbridos e fulgurantes,
e ergo-me em meus enormes templos adversos.
Eu tenho luzes fundamentais,
visto-me com as levezas do acrílico,
trago a explosão dos elementos originais,
meu pecado, minha presença.
E trago, agora, vidros e resinas abundantes,
também meus engenhos híbridos e fulgurantes,
e ergo-me em meus enormes templos adversos.
Eu tenho luzes fundamentais,
visto-me com as levezas do acrílico,
trago a explosão dos elementos originais,
meu pecado, minha presença.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
VENTOS
Os ventos levam os tempos consigo,
e levam os sussurros, levam os alentos,
nunca escutam e nada dizem sobre as indiferenças
que há em seus lamentos e desencantos.
Eles, os ventos, nunca param,
sempre se vão, sempre,
nunca retornam.
E deixam, tão-só, os tormentos antigos,
o silêncio das histórias inconclusas,
as efemeridades dos sucessos,
as pessoas reclusas das memórias.
No silêncio, sua presença que cessou,
nos sucessos, as noites que não foram intensas,
nas memórias, a permanência dos mesmos dias.
e levam os sussurros, levam os alentos,
nunca escutam e nada dizem sobre as indiferenças
que há em seus lamentos e desencantos.
Eles, os ventos, nunca param,
sempre se vão, sempre,
nunca retornam.
E deixam, tão-só, os tormentos antigos,
o silêncio das histórias inconclusas,
as efemeridades dos sucessos,
as pessoas reclusas das memórias.
No silêncio, sua presença que cessou,
nos sucessos, as noites que não foram intensas,
nas memórias, a permanência dos mesmos dias.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
SOL-DAS-ALMAS
Lá, na vermelhidão do horizonte,
onde tão-só os olhos alcançam,
o imenso incêndio, o termo da luz,
o fogo eterno que procura a noite.
Nas ave-marias da pequenina cidade,
três badaladas em um sino sem eco,
braços abrem-se em negras asas de pele,
vultos cegos desordenam-se no ar.
Corre ônibus, corre ônibus!...
Corre para o fim do tempo, corre
em busca do que sempre se distancia,
do bem depois do fim do mundo!
Corre com seu barulho permanente,
com a triste monotonia de seu motor,
no sono de tudo que passa,
no triste silêncio da solidão!
Ao longe, os serrotes escurecidos,
os rochedos desnudados do tempo,
o que tanto detém meus olhos,
as capoeiras secas, as poucas árvores...
No sol-das-almas, há o frio do nada
e as árvores são vultos necessários,
são sombras sinistras que se libertam,
a poeira do tempo cessado...
onde tão-só os olhos alcançam,
o imenso incêndio, o termo da luz,
o fogo eterno que procura a noite.
Nas ave-marias da pequenina cidade,
três badaladas em um sino sem eco,
braços abrem-se em negras asas de pele,
vultos cegos desordenam-se no ar.
Corre ônibus, corre ônibus!...
Corre para o fim do tempo, corre
em busca do que sempre se distancia,
do bem depois do fim do mundo!
Corre com seu barulho permanente,
com a triste monotonia de seu motor,
no sono de tudo que passa,
no triste silêncio da solidão!
Ao longe, os serrotes escurecidos,
os rochedos desnudados do tempo,
o que tanto detém meus olhos,
as capoeiras secas, as poucas árvores...
No sol-das-almas, há o frio do nada
e as árvores são vultos necessários,
são sombras sinistras que se libertam,
a poeira do tempo cessado...
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