sábado, 27 de junho de 2009

"BUATE" ACAPULCO (1)

Na esquina com o beco imundo,
da comprida rua suspeita;
nas agitações das noites,
no sossego dos adormecidos,
no silêncio das casas fechadas:

a velha escada quase não range,
canções fortes ecoam lá encima,
voz sonora em velha vitrola,
traições, fracassos, desilusões,
as promessas dos corpos manchados.

No salão, lâmpadas vermelhas e azuis,
misturas de meias-luzes embrumadas,
mesas com seus panos enodoados,
as velhas cadeiras com vernizes gastos,
as impudências, os sentidos e os olhos:

algumas mulheres que esperam,
minhas belas possíveis...


(1) Um antigo estabelecimento do interior mineiro.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NOITE

A lua já flutua em um mar poente,
uma lua pesada, imensa... No chão,
anjos feridos, sujos de sangue.

Em um ar bem vestido, brilhos encobertos,
o tempo definido em bolas vermelhas,
o isolamento, a inépcia, o mormaço...

Nas ruas, nas luzes das sombras,
as mulheres oferecidas
e os homens obscurecidos.

Sempre há uma voz que nunca existe,
uma varanda alta e uma janela fechada,
as tempestades de um tempo calmo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

AS MULHERES DO CAMINHO

São mãos grossas, ásperas,
mãos que rompem o chão definitivo,
nas desordens das árvores mortas,
as tristes e silenciosas mulheres,
pedras essenciais sob luzes concretas.

O tempo é a poeira que se levanta no caminho...
e nele se assenta lentamente.

O passar de pés nus, pés calejados, feridos,
a indiferença ao sangue que escorre deles;
os olhos são os duros fragmentos da alma,
são os corpos castigados das idades,
as ferramentas que rasgam as imagens.

E os ventos noturnos, ventos sempre vazios,
o calar das dores dos dias, o frio mármore do sono,
filtram o silêncio da voz lunar, a quietude do tempo,
a carne esmagada e os ossos quebrados,
a mudez das mulheres baldias.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

SURGIR

O que acontece é desordenado:
o indiferenciado, a disformidade,
o não-significado.

Pelos filtros óticos,
a luz tênue e indistinta
é o dia de lá de fora,
o que constrói o ambiente.

Conteúdos em sucessivas formas,
as causas do tocar e do tocar-se.

Há uma razão ignorada,
o inato dos olhos cintilantes,
as variações dos pesos,
dos tumultos da noite inteira.

No plasmar dos sonhos,
a vontade de gritar
e a leveza do ar...

terça-feira, 26 de maio de 2009

REMATES

Afogar-me no mar.
O relógio flutua protegido.
São vários ventos, várias ondas,
e existe um dia sintético.

...

Há a permanência e o silêncio,
uma pesada carapuça atribuída,
um tempo sólido de relógio,
um suspiro mudo, um grito imundo.

Tudo se encerra no dia,
no cérebro que explode,
na modalidade de um mar,
morre-se de veias e sangue.

E existem os artifícios de uma avenida,
o abismo que ela veste para o mar,
tudo que contém um tempo morto,
uma voz e uma inutilidade para os ventos.

Adiante, a ilha distante.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

ALIENAMENTO

Entre minhas pernas, vômitos e pus...
E sai meu cérebro inteiro,
sai minha presença.

Em minha boca, uma enorme e incômoda dor,
meus olhos não existem, nunca existirão:
tenho as indiferenças das imagens,
o sem-sentido.

De meus ouvidos podem surgir infâmias,
a destruição do tudo e do nada,
uma avenida plástica,
a renitência dos dias.

terça-feira, 12 de maio de 2009

SUCUMBÊNCIA

Os gritos foram eternos...
Intestinos expostos e almas diluídas,
mãos que se levantaram vencidas,
cicatrizes extremas nos olhos resolvidos.

Sob as túnicas que cobriam os rostos,
as fisionomias contorciam-se,
corpos sugavam a si próprios,
nuvens anoitecidas cobriam os céus.

Restaram as dores inconclusas,
os vultos descompassados e intensos ,
os dias seguintes, os muitos dias...