Ofereço-lhe flores que inventei,
flores que se concluem sem espinhos,
como corpos inteiros sem núcleos,
extraídos das cinzas de espaços inexistentes.
E minhas serenatas dentro das noites
encobrirão os gritos ensandecidos, os gritos...
As vidas enunciadas que surgirão dos artifícios,
os velhos caminhos consentidos,
os velhos caminhos...
Na penumbra de um quarto você estará desnuda,
e poderei notar toda a delicadeza de seu corpo,
sua tão perfeita presença, quase rendida e muda,
perceberei seu corpo quente e a maciez de sua pele negra,
sua pele de cosmos... Sua pele... Eternamente.
Ah, tentarei colocar sua alma e seu corpo sobre lençóis,
sentirei sua respiração arfante, sua respiração-mulher,
o doce calor de seu hálito e da umidade de sua boca,
a sensibilidade que lhe é própria e seus olhos,
e ouviremos muitos veículos transitando nas ruas.
Retirarei, de mim mesmo, o amor que lhe darei,
meu coração que palpitará por ânsia verdadeira,
a ânsia por mim e por você mesma,
nos significados das derradeiras diferenças,
nas ruínas das semelhanças entre os anjos.
Então sentirei a leveza de suas mãos,
mãos que me tocarão tenras, quase tímidas,
mas que me empurrarão, que me excluirão,
e meus pés, lentamente, se arrastarão no chão...
Lentamente... No chão de brasas...
De brasas muito frias...
E os veículos continuarão transitando nas ruas.
domingo, 25 de janeiro de 2009
EXEGESES SOBRE UMA CARTA DE TARÔ
Há o que vem do útero das estrelas,
fruto da penetração da luz nas trevas,
e está nas muitas encruzilhadas
das solitárias paisagens douradas,
onde se oferecem pistas falsas
e liras sedutoras aos enganados,
e lisonjas, muitas lisonjas...
Ah, viajante primordial,
mensageiro dos mensageiros,
que, com mãos encantadas,
transporta taças douradas,
que são túmulos de pedra fria
ou desvios da paixão e da vida,
os termos da alma partida!
Dominados os quatro elementos
e as vontades que nos são próprias,
o céu estará em sua mão direita,
no chão, um caminho que se estreita,
pois na terra, na água, no ar e no fogo,
estarão os tortuosos desvios,
as consumações e os transvios.
Moedas estarão espalhadas,
e duas víboras serão seus bastões,
as concretas razões das divergências
e também das sutis convergências.
Há um inevitável abismo humano,
em que o não-ser prepondera necessário
e contrapõe-se ao olhar visionário.
fruto da penetração da luz nas trevas,
e está nas muitas encruzilhadas
das solitárias paisagens douradas,
onde se oferecem pistas falsas
e liras sedutoras aos enganados,
e lisonjas, muitas lisonjas...
Ah, viajante primordial,
mensageiro dos mensageiros,
que, com mãos encantadas,
transporta taças douradas,
que são túmulos de pedra fria
ou desvios da paixão e da vida,
os termos da alma partida!
Dominados os quatro elementos
e as vontades que nos são próprias,
o céu estará em sua mão direita,
no chão, um caminho que se estreita,
pois na terra, na água, no ar e no fogo,
estarão os tortuosos desvios,
as consumações e os transvios.
Moedas estarão espalhadas,
e duas víboras serão seus bastões,
as concretas razões das divergências
e também das sutis convergências.
Há um inevitável abismo humano,
em que o não-ser prepondera necessário
e contrapõe-se ao olhar visionário.
CONSTATAÇÃO
Silêncio:
há um vagar obstinado, a mudez das almas,
os jardins que se querem floridos, infinitos,
a ebulição dos desarranjos!
Ah, o consentimento, a insensatez,
os desatinos da conformação,
o que deve ser!...
As presumidas perfeições do efêmero,
os impossíveis e insuperáveis jardins,
as deformações da luz.
Há o que se esconde nas imagens,
as “inconcepções” dos sonhos,
os limites.
há um vagar obstinado, a mudez das almas,
os jardins que se querem floridos, infinitos,
a ebulição dos desarranjos!
Ah, o consentimento, a insensatez,
os desatinos da conformação,
o que deve ser!...
As presumidas perfeições do efêmero,
os impossíveis e insuperáveis jardins,
as deformações da luz.
Há o que se esconde nas imagens,
as “inconcepções” dos sonhos,
os limites.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
INTERLOCUÇÕES
Os inversos, as conversas
e as pessoas adversas:
olhos que se agitam,
olhos que se justificam,
que se liquidificam conversos.
Existem muitos ventos e um só tempo invisível,
os inventos espúrios das sombras,
sombras que não gritam,
que nunca dizem,
que nem explicam.
Então se compõe um momento sintético,
extravagâncias, supostas formas originais;
há uma linguagem adequada e bem urdida,
o silêncio de ser,
o que se faz...
E, na noite, há catástrofes invisíveis de eternidades,
desarticulações, substâncias desmanchadas,
os paradoxos do imaginário,
as ruas inventadas,
a cidade....
e as pessoas adversas:
olhos que se agitam,
olhos que se justificam,
que se liquidificam conversos.
Existem muitos ventos e um só tempo invisível,
os inventos espúrios das sombras,
sombras que não gritam,
que nunca dizem,
que nem explicam.
Então se compõe um momento sintético,
extravagâncias, supostas formas originais;
há uma linguagem adequada e bem urdida,
o silêncio de ser,
o que se faz...
E, na noite, há catástrofes invisíveis de eternidades,
desarticulações, substâncias desmanchadas,
os paradoxos do imaginário,
as ruas inventadas,
a cidade....
A AULA
Os números em rígidas lousas,
como as palavras, os ditames,
a negação dos tempos impossíveis,
das vozes delinqüentes, do sereno
das noites que não podem acontecer.
As luzes têm que ser as preestabelecidas,
como a vida e os sentidos do ser e do não-ser,
mesmo que os pés se arrastem na escuridão.
A mudez e a cegueira são as obrigações primeiras
e as brasas não podem arder em terrenos baldios.
As mãos que confortam e aplaudem
são as mesmas dos que reprovam e reprimem,
mãos de quem sempre nega e exclui,
e escreve os números e as palavras,
as coerências e as discussões dos compêndios.
como as palavras, os ditames,
a negação dos tempos impossíveis,
das vozes delinqüentes, do sereno
das noites que não podem acontecer.
As luzes têm que ser as preestabelecidas,
como a vida e os sentidos do ser e do não-ser,
mesmo que os pés se arrastem na escuridão.
A mudez e a cegueira são as obrigações primeiras
e as brasas não podem arder em terrenos baldios.
As mãos que confortam e aplaudem
são as mesmas dos que reprovam e reprimem,
mãos de quem sempre nega e exclui,
e escreve os números e as palavras,
as coerências e as discussões dos compêndios.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Exoração
Mãe-Terra, senhora dos grãos,
da fartura e dos agradecimentos,
da fertilidade e do amadurecimento:
não vê, em seus ermos quase desertos,
que suas estações pouco regeneram,
os passos de seus tristes filhos renegados,
que, vestidos de paixões e de escuridões,
do sofrimento dos homens agonizados,
buscam os braços do senhor das Trevas?
Lá, onde as árvores se descontinuam,
que são as presas das superfícies dos dias
e as substâncias tortuosas da noite,
corpos corrompidos, fragmentados!
Lá, onde os ventos são poeiras de lamas secas
e há a rigidez dos tempos encurvados!
Lá, onde os retirantes são sonhos aniquilados,
são mãos desfiguradas em braços esquálidos,
onde os rumos são os caminhos inexistentes,
pés de sangue que seguem pelas catingueiras,
as infâmias dos suplicantes e dos penitentes!
da fartura e dos agradecimentos,
da fertilidade e do amadurecimento:
não vê, em seus ermos quase desertos,
que suas estações pouco regeneram,
os passos de seus tristes filhos renegados,
que, vestidos de paixões e de escuridões,
do sofrimento dos homens agonizados,
buscam os braços do senhor das Trevas?
Lá, onde as árvores se descontinuam,
que são as presas das superfícies dos dias
e as substâncias tortuosas da noite,
corpos corrompidos, fragmentados!
Lá, onde os ventos são poeiras de lamas secas
e há a rigidez dos tempos encurvados!
Lá, onde os retirantes são sonhos aniquilados,
são mãos desfiguradas em braços esquálidos,
onde os rumos são os caminhos inexistentes,
pés de sangue que seguem pelas catingueiras,
as infâmias dos suplicantes e dos penitentes!
Via Láctea
Silêncio!...
Sinta o respirar eterno da noite,
do imenso tapete de estrelas,
do que permite a ausência da Lua,
os sentidos do mundo!...
Ouça os sons inaudíveis,
os sons do tudo e do nada,
do que está depois das estrelas
e depois de seus olhos,
depois de sua alma despida!
E não receie esta relva fria e úmida,
a relva que cobre esta colina invisível,
onde circulam cegas as serpentes,
nem as vargens brejadas, lá embaixo,
onde correm luzernas desorientadas.
Apenas se solte... E sinta,
sinta seu próprio valor, sinta seu medo...
O universo pulsa.
Sinta o respirar eterno da noite,
do imenso tapete de estrelas,
do que permite a ausência da Lua,
os sentidos do mundo!...
Ouça os sons inaudíveis,
os sons do tudo e do nada,
do que está depois das estrelas
e depois de seus olhos,
depois de sua alma despida!
E não receie esta relva fria e úmida,
a relva que cobre esta colina invisível,
onde circulam cegas as serpentes,
nem as vargens brejadas, lá embaixo,
onde correm luzernas desorientadas.
Apenas se solte... E sinta,
sinta seu próprio valor, sinta seu medo...
O universo pulsa.
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