terça-feira, 6 de abril de 2010

ESCURECIMENTO

Ainda no início da noite,
as conversas de homens pretéritos,
suas constatações e invisíveis construções,
os poucos cães ainda rosnam aprisionados.

No aprofundamento do tempo,
todos se calam, fecham-se as casas:
há um sentido de fome e abandono,
soltam-se os cães na escuridão.

Nos sonhos adormecidos,
a conclusiva conformação,
os ressonos dos homens
e as mulheres laterais.

E vozes e gestos inexistentes,
gritos e sussurros de almas malditas,
dos cães, os longos uivos para as estrelas:
pedras frívolas de ruas vazias.

Então, na pequena cidade anoitecida,
alguma criança chorará solitária,
no esquecimento estará a eternidade.

5 comentários:

Nydia Bonetti disse...

Que beleza de poema, Roberto! Nem me fale desses cães - prestes a devorar outra estação... (lembrando uns versos meus).

Quanto ao jaz "z". Realmente este segundo z não existia. Acabei misturando o que estava ouvindo com o que escrevia e saiu isso. É bom enlouquecer de vez em quando. Os absurdos caem bem, na poesia. :)

Qualquer dia quero postar um poema seu no Longitudes, posso? Abraço!

Roberto Costa Carvalho disse...

Ah, os cães!... Em muitos de meus textos, eles aparecem.

Cá, em meus desvarios, imagino que enloquecer, não raro, faz um bem enorme à saúde (risos). Mesmo agora, quando ouço o tema de "Lago dos cisnes" (Tchaikovsky), que sempre me faz vislumbrar um horizonte imenso, perdido e luminoso e dá-me uma vontade de correr inteiramente para ele.

Quanto ao que me pergunta, fique inteiramente à vontade, Nydia, inclusive em relação à escolha. Apenas uma questão muito me preocupa: será que tenho merecimento para tanto?

dade amorim disse...

Oi, Roberto!
Gosto de vir aqui, ler os poemas, e gosto do "clima" do blog.
Meu problema todo é tempo pra ver todos os amigos, então às vezes passo em silêncio.

Um grande abraço.

Maria Ribeiro disse...

RCC: cada vez mais ,cada um vive mais só para si.Para mim, os cães estão perfeitamente enquadrados na paisagem poética, dado que vivemos ,como é costume dizer-se "num mundo cão". Mas um mundo que não liga ao choro de uma criança, é um mundo sem alma...
Beijo de
Lusibero

Doroni Hilgenberg disse...

Roberto, quanto tempo que eu não apareço por aqui...
Ah ... este teu poema dá a impressão de homens aprisionados em si mesmo e em suas atitudes conformistas através dos tempos, sem pensar nas gerações futuras.
bjs com carinho