sexta-feira, 13 de março de 2009

O SÉQUITO

Eu vejo o desfile imenso:
as faces, os risos mortos,
os muitos olhos escuros,
as bocas deformadas,
os hálitos fétidos.

Eu vejo o grande desfile
seguindo o potentado,
a infinita procissão de sombras,
estendida nas penumbras dos dias.

Eu sinto, eu percebo, eu sei!

Vejo a consistência dos vultos,
os cálculos de seus passos frios,
o desfalecer, a rendição dos santos,
na inteira submissão dos reflexos.

Vejo as enormes filas vindas das distâncias,
as mulheres ocultas, travestidas no branco,
e as lamúrias dos homens não-revelados,
seus pés inúteis sangrados.

E você é como uma jarra com flores murchas,
negra de água apodrecida e lodo,
pois, com minhas mãos, lhe nego um abismo
e entrego-lhe imagens profundas sem véus.

Eu sempre venho, sempre me anuncio:
ainda lhe trago incenso, ouro e mirra
e trago-lhe, agora, uma cruz de acrílico,
tenho uma imensa avenida plástica.

PERMANÊNCIA

Ah, ainda tenho minhas pedras, muitas pedras!...
E trago, agora, vidros e resinas abundantes,
também meus engenhos híbridos e fulgurantes,
e ergo-me em meus enormes templos adversos.

Eu tenho luzes fundamentais,
visto-me com as levezas do acrílico,
trago a explosão dos elementos originais,
meu pecado, minha presença.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

VENTOS

Os ventos levam os tempos consigo,
e levam os sussurros, levam os alentos,
nunca escutam e nada dizem sobre as indiferenças
que há em seus lamentos e desencantos.

Eles, os ventos, nunca param,
sempre se vão, sempre,
nunca retornam.

E deixam, tão-só, os tormentos antigos,
o silêncio das histórias inconclusas,
as efemeridades dos sucessos,
as pessoas reclusas das memórias.

No silêncio, sua presença que cessou,
nos sucessos, as noites que não foram intensas,
nas memórias, a permanência dos mesmos dias.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

SOL-DAS-ALMAS

Lá, na vermelhidão do horizonte,
onde tão-só os olhos alcançam,
o imenso incêndio, o termo da luz,
o fogo eterno que procura a noite.

Nas ave-marias da pequenina cidade,
três badaladas em um sino sem eco,
braços abrem-se em negras asas de pele,
vultos cegos desordenam-se no ar.

Corre ônibus, corre ônibus!...
Corre para o fim do tempo, corre
em busca do que sempre se distancia,
do bem depois do fim do mundo!

Corre com seu barulho permanente,
com a triste monotonia de seu motor,
no sono de tudo que passa,
no triste silêncio da solidão!

Ao longe, os serrotes escurecidos,
os rochedos desnudados do tempo,
o que tanto detém meus olhos,
as capoeiras secas, as poucas árvores...

No sol-das-almas, há o frio do nada
e as árvores são vultos necessários,
são sombras sinistras que se libertam,
a poeira do tempo cessado...

domingo, 25 de janeiro de 2009

CONTRAPONTOS

Ofereço-lhe flores que inventei,
flores que se concluem sem espinhos,
como corpos inteiros sem núcleos,
extraídos das cinzas de espaços inexistentes.

E minhas serenatas dentro das noites
encobrirão os gritos ensandecidos, os gritos...
As vidas enunciadas que surgirão dos artifícios,
os velhos caminhos consentidos,
os velhos caminhos...

Na penumbra de um quarto você estará desnuda,
e poderei notar toda a delicadeza de seu corpo,
sua tão perfeita presença, quase rendida e muda,
perceberei seu corpo quente e a maciez de sua pele negra,
sua pele de cosmos... Sua pele... Eternamente.

Ah, tentarei colocar sua alma e seu corpo sobre lençóis,
sentirei sua respiração arfante, sua respiração-mulher,
o doce calor de seu hálito e da umidade de sua boca,
a sensibilidade que lhe é própria e seus olhos,
e ouviremos muitos veículos transitando nas ruas.

Retirarei, de mim mesmo, o amor que lhe darei,
meu coração que palpitará por ânsia verdadeira,
a ânsia por mim e por você mesma,
nos significados das derradeiras diferenças,
nas ruínas das semelhanças entre os anjos.

Então sentirei a leveza de suas mãos,
mãos que me tocarão tenras, quase tímidas,
mas que me empurrarão, que me excluirão,
e meus pés, lentamente, se arrastarão no chão...
Lentamente... No chão de brasas...
De brasas muito frias...

E os veículos continuarão transitando nas ruas.

EXEGESES SOBRE UMA CARTA DE TARÔ

Há o que vem do útero das estrelas,
fruto da penetração da luz nas trevas,
e está nas muitas encruzilhadas
das solitárias paisagens douradas,
onde se oferecem pistas falsas
e liras sedutoras aos enganados,
e lisonjas, muitas lisonjas...

Ah, viajante primordial,
mensageiro dos mensageiros,
que, com mãos encantadas,
transporta taças douradas,
que são túmulos de pedra fria
ou desvios da paixão e da vida,
os termos da alma partida!

Dominados os quatro elementos
e as vontades que nos são próprias,
o céu estará em sua mão direita,
no chão, um caminho que se estreita,
pois na terra, na água, no ar e no fogo,
estarão os tortuosos desvios,
as consumações e os transvios.

Moedas estarão espalhadas,
e duas víboras serão seus bastões,
as concretas razões das divergências
e também das sutis convergências.
Há um inevitável abismo humano,
em que o não-ser prepondera necessário
e contrapõe-se ao olhar visionário.

CONSTATAÇÃO

Silêncio:
há um vagar obstinado, a mudez das almas,
os jardins que se querem floridos, infinitos,
a ebulição dos desarranjos!

Ah, o consentimento, a insensatez,
os desatinos da conformação,
o que deve ser!...

As presumidas perfeições do efêmero,
os impossíveis e insuperáveis jardins,
as deformações da luz.

Há o que se esconde nas imagens,
as “inconcepções” dos sonhos,
os limites.