segunda-feira, 27 de junho de 2011

[Cotidiano]

A porta:
receio dos olhos que se compõem,
círculos que se fecham nos significados
e nos tempos abjurados, desconcebidos...
Na sala, dispõem-se os objetos.

E alguém está sempre a chegar,
há lamúrias casuais e pouco interesse,
o que se tem no ar, na velha poeira habitual,
os ordinários das palavras, os comedimentos.

Um cigarro consome-se, vozes,
sonos validados e objetos nominados,
a fumaça alarga-se e expande-se na luz,
formas dissolvem-se...

Os aspectos resolvem-se nos olhos acostumados
E a conversa divaga, modula-se pertinente,
a poeira flutua e desordena-se ordenada,
sempre leniente e pousante...

Na porta definitiva, articula-se o que deve ser,
o que não se transpõe.

A porta é muito concludente,
é confusão de sonhos interrompidos.

[Sala de visitas]

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A SALA

Percebe-se a sala da noite.
Ela está depois da varanda,
logo após a porta fechada,
quando cerradas as janelas.

Na sala, luz comum às sombras,
velhas mobílias, pessoas assentadas,
sentinelas e olhos afastados,
preferências e um ritmo vulgar,
o pretenso e a intimidade acostumada,
o que se dispõe, o sintomático.

Do lado de fora, os acoites do vento,
os pesos universais.

[Sala de visitas]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ANUNCIAÇÃO

Aconteço em mim mesmo,
movimento-me,
criatura ou não-criatura.

Formas e conteúdos conjugam-se,
há pressa,
um tempo em construção.

[Sala de visitas]

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

FASCÍNIO

Admiro os loucos,
os que não temem o ridículo,
os desvarios das paixões,
o inconcebível...

Admiro os homens imundos, alucinados,
das obscuridades das esquinas e das sarjetas,
os que gritam enfurecidos para o nada
ou choram e uivam como cães perdidos.

Eles são aprofundamentos dos dias,
da imensa solidão da cidade,
e perdem-se como pedras frias
nos olhos dos homens resumidos.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CONTINUIDADE

Pequeno rio quase córrego,
na descida do morro: expectativas,
meus passos...

No alto, ficam os gigantes
e minha impotência e minhas recusas,
ruas inferiores e cores feridas.

Dos barulhos de mares antigos,
através de frescos ventos,
a alma imprecisa que trago.

Mesmo que não se repitam os propósitos
e que já se tenham passados tantos dias,
você ainda é linda demais para meus olhos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ANOITECER

Há um significado solitário...
Na latência do horizonte,
o silêncio do mundo.

No escurecer da alma,
um único rosto,
a distância do derradeiro.

Nas últimas brisas,
a noite das vozes desatentas,
restos das ardências do dia.

ANIQUILAMENTO

O que lhes oferecem, senhores,
são atos de desistência,
apesar de olhares de dor,
de passos sonhadores.

O que lhes pedem!?...
O que se dispensa a um cão,
uma migalha essencial,
o que se atira ao chão.

Nas almas mortas,
há insensatez,
há insignificância,
o que não se aborta;

e, como substâncias,
pedras de ruas frias,
que são olhos esgotados,
as podridões dos dias.