sexta-feira, 25 de setembro de 2009

TERNURA

Dê-me um beijo, ele será o mundo,
e inventemos um imenso passeio,
uma prece aos talentos dos sonhos:
não choremos por nossa permanência,
não nos maltratemos!...

Com nossas vergonhas e vexames,
comporemos flores inexplicáveis,
variando-as em muitos chãos usados,
chãos plenos de fracassos e tristezas.
São surpreendentes nossos ídolos medíocres!

As coerências do mundo não nos implicarão:
aos olhos dos homens que se angustiam,
somos delicadamente brutais e vazios,
temos o calor que afasta a mão oferecida.
Beije-me, vá, beije-me!...

domingo, 20 de setembro de 2009

MAPA ABSTRATO

Planos, retas, espaços,
esboços e exasperações...

Parecer dizer e sofrer,
traços dispersantes,
procuras excessivas,
o correr dos sentidos,
o fugir.

Nas digressões, a monotonia,
o imenso vazio das coisas.

Espasmos em demasia,
as conveniências dos enganos,
ilhas se perdem no escuro do oceano,
ectoplasmas de almas,
a exaustão, a desistência.

sábado, 19 de setembro de 2009

CATARSE

Pés negros batidos no chão,
calejados, feridos, sangrados,
seqüências alternadas:
complexidades.
Corpos giram:
encadeamentos de lógicas.

Percussões ecoam,
vozes cantam uníssonas
nos rituais dos métodos,
tambores das noites.

Nos ritmos dos espíritos,
inteligências de mecânicas,
agregações e purificações,
retiram-se peixes do mar,
removem-se troncos e pedras.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O BANQUETE

Uma taça transbordante,
o sangue é vivo e quente...
Um coração mecânico pulsa,
o pão está numa mesa de ouro.

E todos se sentam à mesa,
tomam o sangue e a carne,
sentem seus pés firmes no chão,
tudo fazem sob uma condição inútil.

Há uma construção inusitada,
um chão bem limpo,
um espaço vazio
e um cérebro que flutua.

E há uma luz muito tênue,
um sol muito distante,
a água dos peixes multiplicados,
e os esgotos da cidade.

As calçadas são de uma rua gasta,
óvulos são deixados em um canal.
Na sarjeta, o contato das coisas,
no beijo, destila-se o veneno.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

CONFISSÃO

Unicamente diante de seus olhos,
minha imagem de conformidade,
que é dor de meu profundo sono,
intensidade de minha alma,
minha ilusão atroz.

Tenho-a deslizando em meu tempo,
prisioneira de minha confissão sem voz,
do que construo porque me destrói.

O que eu diria somente a seus olhos?...
Nada diria, porque meu olhar é lunar,
é como a noite da solidão do campo,
é o intenso segredo que me rói!

sábado, 27 de junho de 2009

"BUATE" ACAPULCO (1)

Na esquina com o beco imundo,
da comprida rua suspeita;
nas agitações das noites,
no sossego dos adormecidos,
no silêncio das casas fechadas:

a velha escada quase não range,
canções fortes ecoam lá encima,
voz sonora em velha vitrola,
traições, fracassos, desilusões,
as promessas dos corpos manchados.

No salão, lâmpadas vermelhas e azuis,
misturas de meias-luzes embrumadas,
mesas com seus panos enodoados,
as velhas cadeiras com vernizes gastos,
as impudências, os sentidos e os olhos:

algumas mulheres que esperam,
minhas belas possíveis...


(1) Um antigo estabelecimento do interior mineiro.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NOITE

A lua já flutua em um mar poente,
uma lua pesada, imensa... No chão,
anjos feridos, sujos de sangue.

Em um ar bem vestido, brilhos encobertos,
o tempo definido em bolas vermelhas,
o isolamento, a inépcia, o mormaço...

Nas ruas, nas luzes das sombras,
as mulheres oferecidas
e os homens obscurecidos.

Sempre há uma voz que nunca existe,
uma varanda alta e uma janela fechada,
as tempestades de um tempo calmo.