quinta-feira, 16 de julho de 2009

O BANQUETE

Uma taça transbordante,
o sangue é vivo e quente...
Um coração mecânico pulsa,
o pão está numa mesa de ouro.

E todos se sentam à mesa,
tomam o sangue e a carne,
sentem seus pés firmes no chão,
tudo fazem sob uma condição inútil.

Há uma construção inusitada,
um chão bem limpo,
um espaço vazio
e um cérebro que flutua.

E há uma luz muito tênue,
um sol muito distante,
a água dos peixes multiplicados,
e os esgotos da cidade.

As calçadas são de uma rua gasta,
óvulos são deixados em um canal.
Na sarjeta, o contato das coisas,
no beijo, destila-se o veneno.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

CONFISSÃO

Unicamente diante de seus olhos,
minha imagem de conformidade,
que é dor de meu profundo sono,
intensidade de minha alma,
minha ilusão atroz.

Tenho-a deslizando em meu tempo,
prisioneira de minha confissão sem voz,
do que construo porque me destrói.

O que eu diria somente a seus olhos?...
Nada diria, porque meu olhar é lunar,
é como a noite da solidão do campo,
é o intenso segredo que me rói!

sábado, 27 de junho de 2009

"BUATE" ACAPULCO (1)

Na esquina com o beco imundo,
da comprida rua suspeita;
nas agitações das noites,
no sossego dos adormecidos,
no silêncio das casas fechadas:

a velha escada quase não range,
canções fortes ecoam lá encima,
voz sonora em velha vitrola,
traições, fracassos, desilusões,
as promessas dos corpos manchados.

No salão, lâmpadas vermelhas e azuis,
misturas de meias-luzes embrumadas,
mesas com seus panos enodoados,
as velhas cadeiras com vernizes gastos,
as impudências, os sentidos e os olhos:

algumas mulheres que esperam,
minhas belas possíveis...


(1) Um antigo estabelecimento do interior mineiro.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NOITE

A lua já flutua em um mar poente,
uma lua pesada, imensa... No chão,
anjos feridos, sujos de sangue.

Em um ar bem vestido, brilhos encobertos,
o tempo definido em bolas vermelhas,
o isolamento, a inépcia, o mormaço...

Nas ruas, nas luzes das sombras,
as mulheres oferecidas
e os homens obscurecidos.

Sempre há uma voz que nunca existe,
uma varanda alta e uma janela fechada,
as tempestades de um tempo calmo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

AS MULHERES DO CAMINHO

São mãos grossas, ásperas,
mãos que rompem o chão definitivo,
nas desordens das árvores mortas,
as tristes e silenciosas mulheres,
pedras essenciais sob luzes concretas.

O tempo é a poeira que se levanta no caminho...
e nele se assenta lentamente.

O passar de pés nus, pés calejados, feridos,
a indiferença ao sangue que escorre deles;
os olhos são os duros fragmentos da alma,
são os corpos castigados das idades,
as ferramentas que rasgam as imagens.

E os ventos noturnos, ventos sempre vazios,
o calar das dores dos dias, o frio mármore do sono,
filtram o silêncio da voz lunar, a quietude do tempo,
a carne esmagada e os ossos quebrados,
a mudez das mulheres baldias.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

SURGIR

O que acontece é desordenado:
o indiferenciado, a disformidade,
o não-significado.

Pelos filtros óticos,
a luz tênue e indistinta
é o dia de lá de fora,
o que constrói o ambiente.

Conteúdos em sucessivas formas,
as causas do tocar e do tocar-se.

Há uma razão ignorada,
o inato dos olhos cintilantes,
as variações dos pesos,
dos tumultos da noite inteira.

No plasmar dos sonhos,
a vontade de gritar
e a leveza do ar...

terça-feira, 26 de maio de 2009

REMATES

Afogar-me no mar.
O relógio flutua protegido.
São vários ventos, várias ondas,
e existe um dia sintético.

...

Há a permanência e o silêncio,
uma pesada carapuça atribuída,
um tempo sólido de relógio,
um suspiro mudo, um grito imundo.

Tudo se encerra no dia,
no cérebro que explode,
na modalidade de um mar,
morre-se de veias e sangue.

E existem os artifícios de uma avenida,
o abismo que ela veste para o mar,
tudo que contém um tempo morto,
uma voz e uma inutilidade para os ventos.

Adiante, a ilha distante.