quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Presença

Ah, fugir-nos-emos seguros, surpreendentes, livres!
Estaremos contidos em sólidas paredes, protegidos,
distantes um do outro, inteiramente abrigados.

O veículo já percorre as totalidades existentes,
ele rompe os sonhos, todos eles, e as almas:
estaremos inteiramente extremos, alheios.

Não deixemos que estas pessoas permaneçam,
estas pessoas sempre tão aparentes e esquivas,
pensemos em nossas impossíveis palavras.

E pensemos nas nossas impossíveis carícias,
na avidez que não teríamos, em nossa ausência,
nas controvérsias em que nos construiríamos.

Temos invisibilidade em nossas entranhas,
o silêncio é a medida de nossa intimidade.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

PAISAGEM

Veja a campina!...
Ela é imensa, imensa...
Alcança a montanha ao longe,
a montanha acinzentada...

Ela é dividida ao meio:
a rígida cerca de arame farpado,
o rio imóvel que a atravessa
– a campina vazia sob o Sol.

No céu estarão meus olhos de diamantes,
o próprio céu é meu próprio rosto,
o resto de meu corpo, a montanha distante,
e não tenho substância, não tenho alma.

Talvez seu semblante seja a cerca,
a rigidez que delimita as distâncias,
ainda que sua voz seja o vento,
meu som solitário, meu silêncio.

Já o rio imóvel...
Ele é apenas um rio imóvel.

sábado, 14 de junho de 2008

DESARTICULAÇÕES

Em meus ouvidos se injetavam palavras,
os uivos do tempo que construí e possuiu-me,
E meus olhos se invertiam fechados,
minha alma, uma silenciosa chama irresolvida.

No lado de fora, haveria outro tempo,
o da umidade pegajosa sobre o corpo,
o do calor imóvel e da mudez das ruas
que imenso pássaro branco sobrevoava...

Ah, os guinchos do imenso pássaro branco!...
Ele me assustava, congelava-me a carne,
fazia-me o pressentir de um corpo imutável,
meu caminhar vazio na cidade sem esperança:

meus passos na noite das ruas,
na noite das casas dos homens adormecidos,
dos imensos prédios centrais abandonados,
dos veículos ausentes, das pedras desvividas.


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Despertar

A luz, quando surgiu,
fez-se em fruto precioso
e viram-se cruas as almas:
havia mulheres lascivas nas relvas
e homens aturdidos pelos vinhos.

Sob as sombras de árvores frondosas,
nos corpos inteiramente descobertos e nus:
as agonias e os êxtases onanísticos,
os sombreados e as decisivas rebeldias.


Era um tempo de olhos letais.

Amanhecer

Então o Sol veio de depois do mar,
veio de detrás dele, bem de longe;
água-chumbo acabada na praia,
mansidão de brisa e de marulho,
tempo imobilizado no céu de mostarda.

Lâmpadas que se apagaram,
o chão de areia endurecida de água,
os pequenos passos-poça que ficavam,
qualquer dia, um dia repetido e cansado,
o odor da comida que se desejou.

Mil lampejos de cores nascentes,
velhos vultos atléticos nas calçadas,
muitos aparelhos de tv já ligados,
vias de casas e templos convergentes,
os incontáveis sonhos estabilizados.

Então, ao passar dos primeiros veículos,
inúmeras virgens dançaram como vestais,
senhores e senhoras muito se ensimesmaram.

Os pássaros foram matinais,
as pequeninas crianças, risonhas,
e alguns meninos e meninas, desencantados...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Noturno

Ah, quando os tempos se levantam
e o mundo adormece,
quando espero a brisa!...

Na noite, no silêncio das estrelas,
cintile cidade, cintile muito em seu sono,
cintile em seus olhos tão fechados,
pois há cavalos-luas e cavalos-nuvens,
brancos cavalos alados no alto do céu,
e uma presença doce que vem a mim!

Luminosidade

A lâmpada é o artifício,
ela mostra a luz que se quis:

na substituição da alma,
a validade que se constrói,
o que cruza a invisibilidade do ar;

nas imagens da alma desvivida,
o tempo adquirido, o sossego...
a ordem de uma casa fechada.