Ei, moça que permanece:
vejo-a marinheira sem águas,
trôpega em areia fina e ardente,
sem corpo e sem história,
deformidades de si mesma!
Percebo-lhe o conteúdo,
essência líquida em ar decomposto.
Há um oceano cósmico inalcançável,
águas imensas, permanentes,
absurdos de náufragos ausentes.
Nessa imensidade, moça,
sempre meus olhos destoantes,
matérias vítreas e estagnadas,
faces de ventos salinos
e leites lunares.
...
Dou-lhe minha substância impossível,
eterno sinal, estranha natureza,
beijo ácido e forma casual,
roupas com circunstâncias estrelares:
o céu é difuso e acidental.
Há espelhos estraçalhados,
conformidades de padrões,
o amanhecer desta linda cidade,
superfícies de imagens latentes.
sábado, 17 de outubro de 2009
SEIS LINHAS
Nosso elo é inexistente:
temos a desistência,
o não-ser.
De nossas têmperas necessárias,
só a carne e nenhuma palavra,
nenhum gesto.
temos a desistência,
o não-ser.
De nossas têmperas necessárias,
só a carne e nenhuma palavra,
nenhum gesto.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
NO BAIXIO
Este é meu dia lindo!
Águas límpidas do riacho,
mansas e tímidas águas,
barro dissolvido nos pés descalços,
conformidades em meu caminhar lento,
adiante, rochedos encravados na terra.
Do dia retiro flores,
ofereço-as a sua luz intensa.
Há cantos de pássaros invisíveis
e trilhas de animais encantados;
acima, ruínas de casas antigas,
passos dos homens desconhecidos.
Em meus sentidos, as perspectivas
e a exaustão das palavras que me foram ditas.
Águas límpidas do riacho,
mansas e tímidas águas,
barro dissolvido nos pés descalços,
conformidades em meu caminhar lento,
adiante, rochedos encravados na terra.
Do dia retiro flores,
ofereço-as a sua luz intensa.
Há cantos de pássaros invisíveis
e trilhas de animais encantados;
acima, ruínas de casas antigas,
passos dos homens desconhecidos.
Em meus sentidos, as perspectivas
e a exaustão das palavras que me foram ditas.
domingo, 11 de outubro de 2009
TORMENTA
Ventos acumulam-se...
E nuvens.
Eles se revestem de memória e de carne,
de gritos de almas, de dores de sonhos.
Nas distâncias das montanhas,
na chegada da noite anunciada,
raios são metais que fendem as rochas,
as batidas do martelo na bigorna,
o chão em que não se pisa.
E, por trás de três paredes de luz,
olhos cobertos por cortinas rasgadas,
as conformidades dos espelhos
e cabides com velhas roupas pendentes,
sangue derramado em leito quebrado.
No mormaço do ar, forja-se o tempo,
o anonimato dos sussurros.
Do nadir ao zênite,
o silêncioso estrondo do mundo.
E nuvens.
Eles se revestem de memória e de carne,
de gritos de almas, de dores de sonhos.
Nas distâncias das montanhas,
na chegada da noite anunciada,
raios são metais que fendem as rochas,
as batidas do martelo na bigorna,
o chão em que não se pisa.
E, por trás de três paredes de luz,
olhos cobertos por cortinas rasgadas,
as conformidades dos espelhos
e cabides com velhas roupas pendentes,
sangue derramado em leito quebrado.
No mormaço do ar, forja-se o tempo,
o anonimato dos sussurros.
Do nadir ao zênite,
o silêncioso estrondo do mundo.
sábado, 10 de outubro de 2009
NO CAMPO GRANDE
Proibições, restrições,
ressalvas, asseverações...
Insistências e delírios:
o que é apontado e dito,
minha voz é outra voz.
Minha invenção é minha habilidade,
dança frenética... Diabolicamente,
na solidão, no absurdo de meu vazio.
E convoco musas mestiças feitas de ar,
envoltas em nuvens alvas, flutuantes,
busco-lhes a delicadeza dos pés livres,
o calor de suas vulvas mágicas
e seus filhos tristes e esquecidos.
Tenho a desistência dos malditos
e a inconsistência das imagens,
reconstruo o panorama desta praça,
a majestade de seu monumento,
em que se aprisiona a tradição humana,
o gesto de liberdade petrificado.
ressalvas, asseverações...
Insistências e delírios:
o que é apontado e dito,
minha voz é outra voz.
Minha invenção é minha habilidade,
dança frenética... Diabolicamente,
na solidão, no absurdo de meu vazio.
E convoco musas mestiças feitas de ar,
envoltas em nuvens alvas, flutuantes,
busco-lhes a delicadeza dos pés livres,
o calor de suas vulvas mágicas
e seus filhos tristes e esquecidos.
Tenho a desistência dos malditos
e a inconsistência das imagens,
reconstruo o panorama desta praça,
a majestade de seu monumento,
em que se aprisiona a tradição humana,
o gesto de liberdade petrificado.
domingo, 4 de outubro de 2009
AGONIA
Flores foram inventadas
e concluídas sem espinhos:
há um corpo inteiro sem núcleo.
Têm-se números em supostas louças,
cinzas consagradas, de espaços inexistentes:
as canções são de noites antigas,
gritos ensandecidos,
artifícios de túmulos consentidos.
Pés arrastam-se lentamente
e os olhos são negados.
Há vozes inclementes
e a surdez das almas:
brasas frias, muito frias.
e concluídas sem espinhos:
há um corpo inteiro sem núcleo.
Têm-se números em supostas louças,
cinzas consagradas, de espaços inexistentes:
as canções são de noites antigas,
gritos ensandecidos,
artifícios de túmulos consentidos.
Pés arrastam-se lentamente
e os olhos são negados.
Há vozes inclementes
e a surdez das almas:
brasas frias, muito frias.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
VISITA À CIDADE
Roupa nova para ir à cidade,
a que nunca foi usada,
cheiro feliz de naftalina.
Em ruas, avenidas e praças,
as mesmas luminosidades,
os mesmos antigamentes,
os mesmos olhos.
Nos reflexos do largo rio que tem uma ilha,
mangues extremados por areias pardas,
movimentos mansos das fortes correntezas,
águas escuras e incessantes...
No rosto, o frescor dos ventos do oceano,
onde o mundo se amplia e se desconhece,
permanentes ventos, fortes ventos,
nuvens brancas no azul do céu titânico.
a que nunca foi usada,
cheiro feliz de naftalina.
Em ruas, avenidas e praças,
as mesmas luminosidades,
os mesmos antigamentes,
os mesmos olhos.
Nos reflexos do largo rio que tem uma ilha,
mangues extremados por areias pardas,
movimentos mansos das fortes correntezas,
águas escuras e incessantes...
No rosto, o frescor dos ventos do oceano,
onde o mundo se amplia e se desconhece,
permanentes ventos, fortes ventos,
nuvens brancas no azul do céu titânico.
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